29 de mai de 2011

Sensitivo

A casa do Pedro


29/05/2011
A casa do Pedro


Um quarto.Um quadro.Tres crianças correndo na lama nojenta, varias fugas.Um longo caminho, aprisionadas por uma moldura clean. A casa cheia de instrumentos: um sax, uma sanfona jogada embaixo da mesinha central e o quadro dessas três crianças. Onde elas estavam? Tanta dor nos pés, dor espalhada pelos cantos.Tudo espalhado pela casa. O discurso também estava. Matemático, no piano refletia todo o corpo dela. Os cabelos desgrenhados, a voz rouca e grave, o olhar perdido sempre, muito azul.A cumplicidade para encontrar o tom certo.Sentado,um deles tocando um violão – que acho que nunca poderia comprar, nem com a minha poupança - uma musica gostosa. As vezes eu fico pensando e pensando.
“Pode manter,vai Pedro na mesma melodia. Não , não dobra, dobra Pedro. É... Deixa o bigode solar... Sola bigode...”
Mais um chegou. Camiseta vinho,barbinha mal feita, e um jeitinho de “Los Hermanos’.
A janela da casa era de andaimes.Eu queria olhar para tudo.Nada de repertorio, nada de bebida. E ela cantava melodias e tchurururutchuruuu ...meio Amy, meio Aretha, meio tudo. Ela falava : “Que tal?” e todos diziam “Oi?”.
Baile da terceira idade? Eu adorava ! Como em um musical o vento soprou alegria, Blue Moon,uma tarde gostosa, um apartamento limpo, novo e caro, todas as coisas caras. Eu poderia começar a sapatear ali mesmo. Uns olhavam com desprezo, outros com admiração,outros com tesão. E ela forçava para tentar sentir algo por eles mas não se reconhecia. Um samba adentra o corpo como uma arrevoada de pássaros – e do samba um funke. Ele era hiper ativo,hiper verborrágico, hiper tenso,hiper sensível.hiper só.Será que ele se sentia como? Eles estavam muito bem. Sem erros. Dimitri parecia um daqueles grandes heróis de filme épicos, mas era fofinho.
Não tem como fugir do seu passado. Não tem como fugir de onde você nasceu, da sua terra, sua raiz.

Do lado de fora

29/05/2011
Do lado de fora

Um tapete e um espaço minúsculo para se movimentar. Ela sentada no sofá me comia com os olhos. Fixada nas minhas pernas e do jeito que a musica saía de dentro do meu corpo. Eu me aproximo entre baterias e notas. Vários beijos e um vestido, escorrego pelo meio de suas pernas e ouço bigode falando “ Humm.. pode continuar”.
A gente sai.
O som abafado pela porta de madeira e a luz quadriculada de fim da tarde rebatida pelos cobógos de um apartamento seiscentista.
Com os pés no chão e corpo quente ela subiu todos os babados do meu vestido de renda e flores laranjas, puxou minha calcinha molhada e me fudeu. Apesar de tentar me controlar sempre, abracei a causa e nem pensei se o porteiro lá embaixo estava vendo tudo por alguma câmera escondida. O som escondido do outro lado e o sussurro da gente queimando as paredes frias, o extintor de incêndio gelado, rígido que teimava encostar em sua pele sardenta. Da parede pro chão, escorregamos. Eu sentada e ela deitada olhando pelas frestas de luz “Ai eu devia estar com a câmera, ta lindo... a luz ... ta perfeito, os cobógos” ria,chorava, desabava.

Preso no armário

30/05/2011
Preso no armário

O que é meu é meu!
Ninguém toma o que é meu! Faz parte de mim, está aprisionado no meu armário. Só eu posso sentir, só eu posso usar. As pessoas só poderão admirar no meu corpo, no meu jeito. Eu não empresto! Se o empréstimo valer à pena, eu penso. Eu decido se você vai usar ou não. Tem que me pedir. As coisas quebram estragam. Mas só eu posso estragar!
Às vezes é uma merda dividir. Odeio pensar coletivamente. Um dia desses meu pai me disse: “O que é seu é seu, ta guardado. Sem egoísmo não vivemos”. Ouço essa frase e penso: “Existe o que é meu? Esse meu de fato será estático?”. Usamos as pessoas como usamos os objetos. Os perfumes, os sapatos, as roupas...como se comprássemos.
Será que existe um lugar onde tenha um baú? Com o que há de mais raro, onde todos podem desfrutar de tudo, com cuidado e devolver para o baú, se não devolver, pratiquemos o desapego. A gente não leva nada! Aquele casaco azul parecia que eu estava roubando. Roubando seu amor, roubando a sua esperança de vê-lo, a sua segurança de ir viajar para o outro lugar do mundo e encontrá-lo. O mesmo. Tem que ser o mesmo. O meu homem, que me deu aquele casaco que não muda. Seria tão confortável para nós se as pessoas fossem como objetos. “Eu compro outro igual, não tem problema. Tudo foi solucionado. É um casaco azul de tamanho M com o botão azul mais claro e blá, blá, blá...” Não é que eu não entenda o valor simbólico das coisas. Das raridades que nos são dadas. Entendo até a mesquinhez de não dividir e possuir vários bens, o meu bem. Mas na verdade, você não possui nada. Nem o controle do seu corpo. Você chora, ri, grita, sem saber por quê. Eu quero morar nessa terra do baú. Onde tudo e meu, é seu, é nosso, é nada e é tudo em algum momento. Quando perdemos o que é nosso. Perdemos o referencial. O que é meu é tão importante para mim – por que me reconheço. Eu reconheço que sou. Eu me perco sem você. Estou num descampado com céu azul em uma borracharia de banquinha, um lugar ermo. Um senhor de bonezinho verde, pequeno, barbudo. A sua barba é bem branca. Ele não têm conta e a banca não é dele. É da rua. Mas ele sabe o que não têm. Talvez essa seja a maneira dele se reconhecer no mundo.

Acabei de perder minha caneta,engraçado. Eu filosofando sobre posses e perdas e perco minha caneta! Objeto que me faz ser. Ser algo, alguém, para não enlouquecer. Eu parei e falei “ Não escrevo então, observo” . Possuo o pensamento, o que não e matéria, que vai flutuar, transitar e não parar na minha cabeça. Vai voar com o vento, ate perder-se no meio do céu sem nuvens.

Buscamos o reconhecimento o tempo inteiro.

Rio

07/03/2011
Saindo do café armazém.

No caminho do arpoador vimos vários surfistas, deslizando nas ondas, como bailarinas. As ondas eram perfeitas e formavam círculos que explodiam. O mar fazia um som que arrastava. Tinha um surfista que pegava todas as ondas. Ele era bom, era unico, sem roupa de surfar, só estava de Bermuda desprendido. Ficamos horas sentadas num banquinho de Madeira em frente ao arpoador. Uma luz fria de sol, o dia nublado, mas uma vista Linda. Andamos pela areia com um guarda chuva quadriculado, ela parecia uma criança. Mergulhava em todas as ondas, era puxada.
Caminhando ate o metro encontramos o bar da rosa, que tanto procuramos, na verdade era o sindicato do arpoador.
Duas batidas e maracujá e partimos para a Lapa.

Rio

04/03/2011
Bonde do suco. Quantas tortas deliciosas, torta de chocolate amargo, torta de fios de ovo, de limão. Humm… o sanduíche de pão integral com tomate e orégano …delicioso. A chefe de cozinha do bonde do suco é sapatão – tenho certeza. O bonde do suco é ao lado do Rio Galles

Rio

06/03/2011
Que grande aventura estamos vivendo. Algo esta sendo transformado em nossos mundos particulares, Abertura de novos horizontes. Uma náusea me invade sorrateiramente a todo momento. Estou sempre enjoada. Sempre Encoberta de energia e gosmas invisíveis dessa cidade e seus habitantes. O que me felicita é estar ao seu lado..Ouvindo sua voz, sua risada. Ver a mudança que você esta passando. A grande transformação. Eu te amo, estar com você já e minha melhor viagem.

Rio

07/03/2011
Toda noite escutamos gemidos, gritos e brigas. Ficamos entre quatro paredes de um quarto com baratas de praia e uma cortina com manchas vermelhas e brancas com furos de cigarro. A cortina tem uma cor verde musgo, tem cheiro de mofada, como se o mundo tivesse defecado nela.
Estamos nessa viagem inteira transitando por momentos de pura ilusão e realidade crua.
Andando nas ruas de carnaval, só eu e ela, num beco cheio de casas antigas, fomos surpreendidas por duas crianças jogando confetes verdes, no céu uma garoa leve. Gente, o tempo inteiro, gente de verdade. Na porta de metal com letreiro vermelho escrito HOTEL, duas travestis senhoras reclamando da ‘guarda-chuvada’ que uma delas havia recebido. O cabelo parecia peruca, a sobrancelha bem marcada e lábios largos, vermelhos. Subindo as escadas, num portão verde de ferro,(sempre vamos correndo para o quarto para ninguém nos ver). Os quartos ao lado fazem parte do nosso imaginário, só ouvimos suas vozes. Varias. Queremos ser invisíveis, por medo, por não querer ver uma realidade tão distante da nossa, ou por agirem de forma preconceituosa com a gente.
Vestimos-nos de palhaço com bigodes e fomos para LAPA.

Carnaval - Rio

05/03/2011  

Rio de Janeiro. Carnaval, sexta-feira.

Hoje é a nossa segunda diária no hotel Rio Galles em Santa Tereza, na Lapa.
Aqui é um puteiro na verdade, só tem traveco. Super bizarro. A diária por R$ 60, nos submete a tal situação. Estamos vivenciando um estudo antropológico, adversidades culturais - passamos o dia na zona sul em Ipanema, e depois passamos a noite na zona norte, nos deslocando de motéis a puteiros cada um mais perturbador que o outro. O primeiro foi um motel típico da luz vermelha e azul piscando. Entramos e nos deparamos com girassóis de plástico (coisa que divide as semelhanças entre Van Gogh e Almodóvar). A senhora do balcão era um tanto cafetina. Seus grandes óculos entre a pele morena e com rugas, observava as duas sapatões com cara de gringas. O que pensava ela ao nos ver? Pessoas estranhas em lugares indevidos. Evocamos essas estranhas energias suburbanas do Rio de Janeiro, como hoje por exemplo - fomos abordadas por Sheila e a sua colega de comunidade do Morro do Pavão. As simpáticas e marrentas “pretas malandras” abraçaram  nossa causa e sentiram na pele a nossa discriminação ao medo de subir no morro com elas. Puxando fortemente nosso braço e usando seus sinos faciais bem desenvolvidos para reverberar aquela marra carioca. Era um mar turbulento (daqueles que puxa) – levamos um caixote.